quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Os Dois Alforjes

Desejo contar uma fábula de La Fontaine chamada Os Dois Alforjes. Gosto muito desta história, pois toca de forma muito sensível num aspecto comum da vida cotidiana: O modo que as pessoas se referem a outras.

Para melhor entendimento da fábula, é importante salientar que alforje é um duplo saco, ligado por uma faixa no meio, formando duas bolsas iguais, sendo usado ao ombro ou no lombo de animais, de forma que um lado fique oposto ao outro.


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Os Dois Alforjes

Um dia, Júpiter convocou todos os animais para comparecerem diante dele, a fim de, comparando-se com os outros, cada animal reconhecesse os próprios defeitos e limitações. Deste modo, Júpiter poderia corrigir as imperfeições.


Os animais, um a um, foram chegando. Sobre si, gabavam-se de suas qualidades, elogiavam-se a si próprios e só relatavam os defeitos alheios. O macaco, ao ser questionado se estava feliz com seu aspecto, respondeu:

– Mas obvio que sim! Cabeça, tronco e membros eu os tenho perfeitos. Em mim praticamente não acho defeitos. É pena que nem todo o mundo seja assim... – Os ursos, por exemplo, que deselegante!

O urso veio em seguida, porém não se queixou de seu aspecto físico. Pelo contrário, até gabou-se de seu porte. Fez críticas aos elefantes: orelhas demasiadamente grandes; caudas insignificantes. Animais grandalhões, sem graça e sem beleza.

Já o elefante pensa o oposto e se acha encantador: porém, a natureza exagerou, para o seu gosto, quanto à gordura da baleia.

A formiga, ao falar da larva, franze o rosto: – Que pequenez mais triste e feia!

Assim são os homens. É como se lhes tivessem colocado dois alforjes: no peito, o alforje com os males alheios, e nas costas, o alforje com os próprios males. De tal modo que eles são cegos quanto aos próprios defeitos, mas enxergam com nitidez os defeitos dos outros.

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As fabulas comumente contém uma lição de moral. É fácil perceber o que La Fontaine queria dizer; ele mesmo nos afirmar tacitamente no final do texto que “Assim são os homens...” Entretanto, nos reservaremos ao direito de refletir um pouco mais sobre os fatores psicológicos e emocionais que nos fazem, tantas vez, encarar o mal, o feio, o errado nos outros, sem nada disso perceber em nós mesmos. Enxergamos um cisco no olho do outro, mas não vemos uma trave diante de nossos olhos, como disse Jesus. Por que isto? Quais as causas, as razões? Como transformarmos esta forma de ver? Nos próximos textos estudaremos tais questões! Até mais...

(Baseado no livro ‘La Fontaine e o comportamento humano’, ditado por Hammed, psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A Vida de David Gale

Filme: A Vida de David Gale
Título original: The Life of David Gale
Direção: Alan Parke

Sinopse: David Gale (Kevin Spacey) é um professor que trabalha na Universidade do Texas e também um ativista contra a pena de morte. Até que, após o assassino de uma colega de trabalho, Gale é acusado e condenado à pena contra a qual ele tanto combate. O caso chama a atenção de Elizabeth Bloom (Kate Winslet), uma jornalista que decide investigar a vida de Gale e também o sistema judicial que o condenou à pena de morte.


(www.adorocinema.com)



Um filme empolgante e inteligente, que vale a pena assistir. É um bom suspense policial, com minúcias que tornam a história arguta e única. O final é inesperado. Entretanto, é uma pena saber que um filme tão bom poderia ser muito melhor. Por abordar a pena de morte, poderiam ter tratado mais a respeito do sistema penal americano. Ou então, por David Gale ser um professor de filosofia, poderiam ter explorado muito mais as questões sobre a vida e a morte. O começo do filme parece dar este tom, quando em sua aula, David faz a exposição citada abaixo (e que depois de visto o filme, pode ser melhor entendida). Porém, o filme não explora as questões filosóficas como poderia bem fazer. Com estes lances a mais, haveria a possibilidade de o filme ter muito mais emoção. De qualquer forma, vale a pena assistir!


"Vamos lá, pensem. Quero que entendam aquelas 'mentes'. E me digam, digam a todos... quais são as suas fantasias? Paz no mundo? Fama internacional? Ganhar um prêmio Pulitzer? Ou um Nobel da Paz? Um prêmio de música da MTV? Possuem fantasias com um grande parceiro? Malvado, mas ardente e de nobre paixão e disposto a dormir no lado molhado da cama?... Entendam a idéia de Lacan: As fantasias têm de ser irrealistas. Porque no momento, no segundo que consegue obter o que quer, então não quer, não pode querer mais. Para poder continuar a existir, o desejo tem de ter os objetos eternamente ausentes. Não é 'algo' que vocês querem, e sim a fantasia desse 'algo'. O desejo apóia fantasias desvairadas. Foi essa a idéia de Pascal ao dizer que somos apenas realmente felizes quando sonhamos acordados com a felicidade futura. Daí o ditado: 'O melhor da festa é esperar por ela.' (Em inglês: The hunt is sweeter than the kill). Ou: 'Cuidado com o que desejas.' (Be careful what you wish for). Não pelo fato de conseguir o que quer, mas pelo fato de não querer mais depois de conseguir. Então a lição de Lacan é: Viver de desejos nunca o faz feliz. O verdadeiro significado de ser plenamente humano é a luta para viver por idéias e ideais. E não medir a vida pelo que obtiveram em termos de desejos, mas por aqueles momentos de integridade, compaixão, racionalidade e até auto-sacrifício. Porque no final, a única forma de medir o significado de nossas próprias vidas é pela valorização da vida dos outros.
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